Meu Deus! Já faz mais de ano?
Vou providenciar um retorno decente.
sábado, 20 de junho de 2009
sábado, 3 de maio de 2008
Fetiche da gastronomia.

É conveniente que a aparência dos pratos de comida sejam melhores até mesmo do que seu próprio gosto.
Não, não é uma opinião minha. Quer dizer, minha também; mas ocasionalmente de 9 entre 10 chefes de cozinha bem renomados.
É uma sacanagem! Por exemplo: não acho ostras apetitosas. Aliás, nada com aspecto de ostras ou minhocas. O aspecto 'gosmento' de algumas gastronomias, me dá embrulhos.
Entretanto, eu, volta e meia, tenho consciência de minha ignorância, deslumbre e burrice (enganados até por nossos próprios cérebros e estômagos! merda!) - uma folha aqui, um creme lá, um tomatinho seco, blá blá blá, e pá! Um belíssimo prato de ostras à australiana (invejo nomes criativos de comida), onde as malditas ostras se escondem debaixo de uma puta salada de especiarias bonitas, e pasmem! GOSTOSAS.
A gastronomia é um serviço do diabo.
E os europeus comem mal pra cacete. Onde já se viu - esse prato de... de... com cerveja? AHN?
Certeza que tem uma ostra aí.
quinta-feira, 27 de março de 2008
Meu pé de cimento fino.

Cortei o dedão do pé.
Não, minto. A pele debaixo do meu dedão do pé foi decepada por um filete de cimento. Assim, sem dó. Rio de sangue. Entretanto, só me dei conta porque me viram nesse estado (com um lençol na mão e pregadores no chão), e correram com uma toalha.
Nunca fui de me cortar muito, nem quebrar, fisicamente falando. Uns anos atrás me empenhei (bastante até) em conseguir colocar um gesso, só para saber como era. Cacilda, o Bradesco consegue faturar bilhões ao ano, eu só queria um gessinho.
Depois eu digo que Deus é um cara sacana, e sou apedrejada, enfim.
Foi a primeira vez que vi uma grande quantidade de sangue sair de mim, como água escorrendo rio abaixo mesmo. Talvez tenha perdido tanto sangue durante a vida, em outros aspectos, que quando ele se materializou, pensei ‘é, isso aí..., bacana, qual a graça?’.
Já vi quantidades maiores de sangue sair de dentro de alguém (é, não é muito agradável), e lembrando das cenas, tive a mesma postura que tiveram comigo – apertei bem para parar o sangramento, limpei, cuidei, etecétera. Essas coisas devem ser sempre agradecidas. Sangue não é salmão grelhado com batatas soutê, veja bem.
Verdade que, olhando para o meu pé, notei umas cicatrizes em volta. Putz, o cara já se machucou pra caramba. Todos os dias. ‘Acorda, campeão, luz do dia’. E ele, humpf!, nunca tinha reclamado com tanta eficiência.
Não doeu na hora, juro. Volto a olhar para o meu pé nesse momento, feio de dar dó, em carne viva, e penso ‘caráleo cara, como nem percebi que fodi tanto contigo?’. E ele se vinga. Arde quando a água cai sobre ele. Produz substâncias purulentas que fazem doer meu caminhar (óquei, pseudo-caminhar). Enche-se de raiva, e fica vermelho, de sangue. Faço carinho, passo anti-séptico, curativo. ‘Vem cá, querido. Vem cá’. Horas mais tarde, mesma luta insana por um pouco de sono tranqüilo e sem dor.
Algumas coisas lembrarão você por muito tempo o quanto você foi relapso, preguiçoso, infeliz, idiota e negligente em algum momento (e neste caso, eu só fui pegar o lençol no varal, puta merda).
E não é como alguns diretores europeus gostam de fazer: uma noite ruim, estrelada, no bar de sua mansão, perto da piscina, bebendo uísque e pensando ‘que merda, que merda’.
É vida dura da mais real: muito sangue, muita porrada, muita cicatriz, muita raiva, muito mau-humor. Uísque para dopar, não para mostrar o glamour do sofrimento.
Quando se trata de ser vingativa, a vida e seus comparsas tem desempenho exemplar.
Entretanto, meu pé estará aqui para sempre (espero, claro). Talvez seja meu bônus. Oportunidade. Redenção. Salvação. Não brigarei por palavras.
Em breve, cicatrizado e eternamente marcado. Mas me jogando pra frente. Ação, e reação.
Lembrando-me de que não importa, algumas delas (cicatrizes) vão doer volta e meia, haverá novamente sangue, dor e olheiras. Mas só com ele é que será possível chegar em algum lugar, não sei qual. No caminho – que é o mais importante, a movimentação - é meu companheiro.
O único, e melhor. E apesar de não ser um recorde nos 100 metros rasos, ele é sensacional. Deu-me a sorte de entrar na vida e na condição humana, e por isso, serei eternamente agradecida, de todos as maneiras e com todo o meu amor.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Um final decente, ao menos.
Qual é a verdadeira importância de ter um blog?
Nada mais justo do que encerrar os trabalhos desse ano por aqui assim – questionando algo que me acometeu há meses, quando abandonei a própria sorte o Parágrafo, Travessão.
Este, aliás, é o ponto. O seu blog passa a ser um pedaço de você. Tudo que colocamos nele lhe pertence de uma maneira tão íntima, que dói atualizá-lo. Confidenciar – das idéias aos mais podres sentimentos – não é algo que nos ensinam. De repente, você escreve, o papel aceita tudo; e você se depara com um lado negro, uma podridão, um erro, enfim, umas dessas coisas que nos fazem doer na vida. Apertar o botão ‘publicar postagem’ foi um dos piores momentos da minha vida esses tempos.
Particularmente, comecei a escrever porque não encontrava espaço para falar. Fala-se tanto de globalização, e que a ciência eliminou as distâncias, e isto, e aquilo; e eu, pobre em minhas considerações, acredito que nunca as pessoas estiverem mais distante umas das outras.
E, feliz ou infelizmente, o que as pessoas tem a dizer é importante, para elas. Não falar sobre determinadas coisas, pode enlouquecer alguém de verdade. Assim, receber alguma informação, confidência, revelação, passa a te tornar importante também. Se há seis bilhões (ou mais) de pessoas no mundo, e a tecnologia tratou de tornar a presença algo tão superficial quanto os programas de domingo na TV, ser escolhido para receber qualquer discurso significa muito. Talvez seja a maior prova de consideração e amor que se possa receber de alguém.
E nesse aspecto é que as pessoas se consideram. Respeitam-se. Admiram-se. Amam-se.
Ouvindo-se.
Portanto, ter um blog (e estar por aqui) significa que quero compartilhar (com quem quer que passe por aqui), muito do que penso, do que me acontece, do que me deixa sem dormir e comer.
E como este pedaço de mim não nasceu como um diário, escreve menos para mim, do que para vocês.
O nome deste blog foi sugerido por um amigo, logo após ele ter matado o seu (do qual eu era muito fã, por sinal). A idéia nasceu de uma dessas porcarias que nos ensinam no primário, o famoso (quando se está ditando discursos diretos para as crianças): ‘dois dedos, parágrafo, travessão’.
O ‘parágrafo, travessão’ sempre me incomodou. Porque eu deveria escrever longe do começo da página? Colocar um tracinho lá, como se aquilo representasse alguma coisa importante? (perdoem-me os lingüistas).
Nasceu isto aqui. Das minhas curiosidades. E da minha especial vontade de transmitir alguma coisa de bom para a vida das pessoas – seja em pequenos textos, em imagens, em textos inspirados, em pequenas frases ou fragmentos.
De um ano horrível que se passou, o mais lamento é que tenha abandonado isso aqui – que sempre me acompanhou, que sempre foi um grande parceiro, grande ouvinte, grande respeitador dos meus sentimentos e podridões.
Agradeço àqueles que um dia passaram por aqui, e me ouviram. Àqueles que passaram por aqui, me ouviram, e deixaram que eu soubesse disso. Àqueles que brigaram, teimaram, cobraram presença, textos, sinais de vida.
Como não tenho, tão pouco terei, controle sobre todas as coisas que vão me acontecer, acredito que a vida seja um eterno prometer e perdoar – porque a perfeição não atinge os verdadeiros homens.
Prometo, no próximo ano e nos demais, que darei mais atenção a este pedaço de mim. E peço perdão, desde já, se a vida e tudo que há nela, não me permitirem isso sempre.
Feliz 2008,
E que Marte seja carinhoso com a vida de todos.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Dizeres simples em feriados santos.
Liguei a TV esses dias, para que o sono viesse, e os demônios que me acompanham diariamente pudessem dormir também, ao invés de me pesarem na vida.
Passando pelos canais, cheguei a um desses programas de encher programação da madrugada, sobre Deus, e o evangelho, e sobre o demônio ter tomado conta de sua vida, e assim você ter se afastado da luz, enfim. O tema era: ‘Natal: uma festa justa ou injusta?’.
Tempos atrás, lá pelos meus 15 anos, havia decidido que sobre algumas coisas não valia a pena conversar, pelo menos nos domingos e feriados.
O programa falava, claro, sobre o aniversário de Cristo, e magia do Natal, e de como as pessoas se amam e se querem bem todos os dias 25 de dezembro de todos os anos.
O ‘injusto’ nada tinha a ver com quem tinha famílias fudidas onde o mais próximo de um pai e de uma mãe podia ser um cachorro, ou sobre quem não tinha dinheiro para comprar presentes de Natal e era obrigado a conviver com toda essa ‘decoração mágica’ que ajudava a piorar o seu estado de sentir-se um completo idiota falido, ou mesmo, sobre caras que seguem outras religiões verem-se rodeados de programas, e festas, e shows para comemorar algo que eles não consideram válido.
‘Injusto’ era sobre as luzes dos enfeites. O néon. E o trabalho dos departamentos de metereologia e de astronomia, que eram prejudicados nessa época. As milhares de luzes piscantes e enfeites brilhantes dificultavam o trabalho dos astrônomos; que não conseguiam encontrar os planetas e as estrelas, e tudo o mais.
Perdi o sono. Fiquei horas pensando como se gasta dinheiro produzindo essas porcarias. E como há pessoas que, no meio da madrugada, realmente acreditam nisso? Humpf.
Eu daria minha opinião aqui, porque não consigo pensar muito de madrugada (a não ser quanto subestimam minha inteligência), e compartilhar (qualquer coisa) é dos únicos prazeres que tenho na vida:
‘ Todos os dias 25 de dezembro (e também outros feriados santos que dêem mídia), todos os cidadãos desse país devem olhar para o céu. Para os diabos com telefone, Internet, e essa globalização do caráleo.
Deitar a cabeça pra cima, e sentir o infinito. No meio do caminho, claro, maravilhar-se com as produções artísticas de decoração natalinas; mas nunca se perder nas entressafras. Ir mais pra cima, e se sentir pequeno. Completamente pequeno. Quase inexistente debaixo de uma das melhores coisas que a natureza fez, e a física e a tecnologia fizeram o favor de aproximar, e explicar. Levar os filhos, a família, os amigos, todos que conhecer.
Para todos, e eu e você, deixarmos de sermos bestas. Pararmos de transmitir coisas bestas uns aos outros. Falarmos besteiras para nós mesmos, e para os próximos. Finalmente aceitarmos que não somos deuses e que o mundo não conspira a favor de ninguém em especial ’. (GARCIA, Raphaela. Dizeres simples de feriados santos. Ribeirão Pires: Casa dos pais, 2007).
(...)
Homens não são ilhas. E mais do que qualquer coisa, ou crença, minhas convicções dizem que o mundo está ficando pequeno demais para tantas pessoas com tantas opiniões e perfis diferentes.
Então, antes que as pessoas continuem a se tornarem bestas, é preciso virar suas cabeças.
Não que a vida seja sempre espetacular, ou o mundo inteiro mude porque um cruzeiro do sul o está iluminando; mas o céu e o seu infinito – essas coisas simples - aproximam as pessoas em suas diferenças, e ao contrário de nós, seres humanos limitados, respeitam e as admiram, iluminam quem quer que seja – porque o mundo é assim – não faz concessões. E o mundo não poderia fazer melhor falta de concessão do que essa: deitar sobre a cabeça de todos, um pouco de real igualdade.
O meu ‘feliz natal’, enfim, é de que todos procurem se desalojar de suas masmorras, e toquem e sintam suas vidas, a fim de que a tornem melhor para si mesmos e não descontem nos outros, e no mundo, o fato de não alimentarem bem seus demônios e deixarem que tudo de podre que a humanidade produz diariamente interfira em suas vidas a ponto de olharem para o lado, e não se enxergarem no próximo.
Muitos abraços, e poucos panettones, a todos que passarem por aqui.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Metrô-Kids.

Havia me esquecido o quanto é 'bão' andar de metrô.
E não pelo conforto, ou economia de tempo, ou belas paisagens.
Quando costumava andar de metrô todos os dias, sempre encontrava alguém bacana. Geralmente crianças. Não são todas, claro, mas a maioria gosta de fazer amizade. Perguntam coisas mais interessantes, tem melhores questionamentos da vida, não se revoltam por qualquer besteira, e em um dia de sorte, talvez até uma risada gostosa você consiga.
Dias desses, linha azul, em direção ao Tietê.
Um guri, chapéu de caubói, bermuda, puta frio, no auge dos seus 6 anos, desejando que chegasse logo a 'Estação Tiradentes'.
- Engraçado essa estação.. Tiradentes.. o cara já morreu pô. Porquê fazer uma estação com o nome dele?
(Dois rapazes, no auge dos seus 15 anos, topetes, Nike´s Schock´s e derivados respondem):
- Pois é, ele era meio que um 'herói'.
- É.. eu sei.. onde ele morreu mesmo?
- É.. bem... putis.. onde foi mesmo?
(...)
- Deve ter sido lá nas Minas Gerais, né moça?
Neste momento, como havia me dirigido a palavra, continua:
- Se o meu pai morrer, vou fazer um carrinho de rolimã com o nome dele. 'Zé Celso'. Meu pai tem medo de andar de metrô, sabe...
Lembrei de que gosto de andar de metrô, por no momento que vislumbro uma tentativa de suicídio, alguém me puxa pra baixo e diz 'calma, moça, faz isso não'.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Para pessoas como eu, que não tem acesso à Folha de São Paulo.
Após ter sido assaltada pela quinta vez, em São Paulo claro, e não ter QI nem paciência para reclamar no jornal, resolvi que não ia mais reclamar. É.
Se quisessem me assaltar, que assaltassem. Como eu não tenho nenhum Rolex, a única exigência é que deixem meus documentos pois é o maior perengue tirar outros. Levem o que quiser. Desapego. Total. Até facilito. Pergunto se o cara quer tomar um cafezinho, contar das mazelas da vida dele, como está a vida, quantos trocados juntou naquele dia.
Apesar de estar cultivando essa paciência e ironia quase espirituais há anos, não consigo deixar de ficar emputecida nos feriados. Os prolongados, como esse de agora. Deus meu! Como acabem 500 novos carros em São Paulo todos os dias? Como alguém ainda tem coragem de andar pelas Marginais? Trafegar pela Rodovia dos Bandeirantes em vésperas de feriados? E comer aqueles amendoins torrados em sei lá o quê, então? Pai!
A Rodovia dos Bandeirantes é a coisa mais sensacional desse país. Permite que eu chegue em minha casa em 1 hora, cravada, andando a 110 kilômetros por hora e apreciando boa paisagem. Sem stress. Sem inconvenientes. E ainda tem o Frango Assado que tem um biscoito muito bom.
Aí, inventaram a competição no mercado de trabalho. Acham que dá para jogar todo mundo aí, e as pessoas que se virem. Que se danem. Capitalismo selvagem. Aí, as pessoas ficaram estressadas. Aí inventaram os feriados, e as (arggg!) emendas. Aí, as pessoas querem viajar nos feriados. Aí, as pessoas decidem ir para a praia. Aí, as pessoas saem de suas longínquas cidades para tomar sol, em seus carros abarrotados de filhos e tranqueiras. E passam pela Rodovia dos Bandeirantes, claro.
Xinguei. Todos. Sem dó nem piedade. Para o inferno com a paciência. Via um carro passando de Bauru, abria a janela do carro e gritava ‘filho da puta de merda!’. Outro de Jundiaí, ‘volta para sua terra, cuzão’. Outro de Campinas, ‘bando de viados do caráleo, até aqui, porraaaaaa!’.
Deviam cobrar um pedágio milionário para os caras que só passam por São Paulo nos feriados para chegar ao seu destino. Que atrapalham (mais) o maldito trânsito. Que cortam seu carro pela expressa. Que te fecham sem dar seta.
Mas é claro que essa é uma reclamação egoísta.
Viajar é delicioso. De-li-ci-o-so.
Na verdade, até curto um arzinho poluído entrando nos meus pulmões. Respiro fundo e penso: “São Paulo, que benção, amém”.
Pronto, voltou a paciência. E a ironia.
Se quisessem me assaltar, que assaltassem. Como eu não tenho nenhum Rolex, a única exigência é que deixem meus documentos pois é o maior perengue tirar outros. Levem o que quiser. Desapego. Total. Até facilito. Pergunto se o cara quer tomar um cafezinho, contar das mazelas da vida dele, como está a vida, quantos trocados juntou naquele dia.
Apesar de estar cultivando essa paciência e ironia quase espirituais há anos, não consigo deixar de ficar emputecida nos feriados. Os prolongados, como esse de agora. Deus meu! Como acabem 500 novos carros em São Paulo todos os dias? Como alguém ainda tem coragem de andar pelas Marginais? Trafegar pela Rodovia dos Bandeirantes em vésperas de feriados? E comer aqueles amendoins torrados em sei lá o quê, então? Pai!
A Rodovia dos Bandeirantes é a coisa mais sensacional desse país. Permite que eu chegue em minha casa em 1 hora, cravada, andando a 110 kilômetros por hora e apreciando boa paisagem. Sem stress. Sem inconvenientes. E ainda tem o Frango Assado que tem um biscoito muito bom.
Aí, inventaram a competição no mercado de trabalho. Acham que dá para jogar todo mundo aí, e as pessoas que se virem. Que se danem. Capitalismo selvagem. Aí, as pessoas ficaram estressadas. Aí inventaram os feriados, e as (arggg!) emendas. Aí, as pessoas querem viajar nos feriados. Aí, as pessoas decidem ir para a praia. Aí, as pessoas saem de suas longínquas cidades para tomar sol, em seus carros abarrotados de filhos e tranqueiras. E passam pela Rodovia dos Bandeirantes, claro.
Xinguei. Todos. Sem dó nem piedade. Para o inferno com a paciência. Via um carro passando de Bauru, abria a janela do carro e gritava ‘filho da puta de merda!’. Outro de Jundiaí, ‘volta para sua terra, cuzão’. Outro de Campinas, ‘bando de viados do caráleo, até aqui, porraaaaaa!’.
Deviam cobrar um pedágio milionário para os caras que só passam por São Paulo nos feriados para chegar ao seu destino. Que atrapalham (mais) o maldito trânsito. Que cortam seu carro pela expressa. Que te fecham sem dar seta.
Mas é claro que essa é uma reclamação egoísta.
Viajar é delicioso. De-li-ci-o-so.
Na verdade, até curto um arzinho poluído entrando nos meus pulmões. Respiro fundo e penso: “São Paulo, que benção, amém”.
Pronto, voltou a paciência. E a ironia.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Dos meus poucos talentos.

Lembrei-me, neste feriado santo, em meio ao show dos grandes caras do “Blues Etílicos”, da primeira frustração que tive na vida: não saber tocar instrumentos de cordas.
O guitarrista base da banda (e o melhor guitarrista de slide do Brasil), Otávio Rocha, me deixou angustiada. Recordava-me, dos velhos tempos, em que todos os meus coleguinhas de turmas, dedilhavam letras cafonas com a maior facilidade do universo enquanto eu mal sabia segurar um violão.
A primeira vez que ouvi Hendrix tocar, eu chorei. Achei que não tinha sobrado lugar para mim no mundo.
Nós ser humanos completamente imperfeitos e sacanas, sabemos (ou deveríamos saber) que reproduzir porcarias é danoso – para o resto do mundo, e claro, para as pessoas que farão parte disso. O mundo não precisava do meu som na guitarra quando já havia nascido um Jimi Hendrix. Fato. E respeitar as coisas mais extraordinárias que surgiram neste mundo, é uma das coisas que aprendi, das quais me orgulho na vida. Assim como apreciar as poucas coisas boas que o mundo ainda me oferece. (Se você está lendo esse texto, e ainda não ouviu o Jimi Hendrix, pare por aqui!, e vá ouvir “Foxy Lady”, peloamordedeus!).
A primeira vez que meu pai me ouviu dedilhando alguma coisa, por exemplo, eu tinha sete anos. Acabado de receber o ‘diploma da pré-escola’. Disse: “Porcaria, filha, porcaria”.
Claro que eu poderia matá-lo, ou esfolá-lo vivo, mas, pela primeira vez em minha curta experiência de vida, decidi que precisaria saber alocar meus recursos humanos em coisas que me trariam prazer, ou pelo menos, por exemplo, passar a tocar violão sozinha, trancada dentro do quarto, para perceber que sou ruim mesmo, e não perder a capacidade de rir disso. Aprendi a ouvir Jimi Hendrix, assim, desejando ouvir alguma coisa melhor do que eu.
Não sei o que houve com o mundo, ou o que o mundo fez com as pessoas, ou qual o papel da ‘vida’ em todas essas porcarias que tem se feito e reproduzido atualmente (do desenvolvimento econômico do país a músicas de péssima qualidade). E minhas considerações sobre isso, seriam filosofias baratas de boteco.
Mas acredito, eu, não ter o privilégio de ter recebido apenas coisas boas da vida, ao contrário. Há dias em que acordo, e penso que fui sacana. Pilantra. Ordinária. Na crucificação de Cristo, eu era um dos filhos da puta que pregaram os pregos. Devo ter olhado bem fundo em seus olhos, e ter dito ‘o senhor é um picareta senhor j.c, um picareta’. Penso até, que se já houvessem inventado a 12, eu a teria usado. Na cara. Sem dó, nem piedade, nem qualquer desses valores que o cara espalhou pelo mundo. E ainda devo ter agarrado Maria, e a convidado para tomar um drink. Assim, podre e bem fiodaputa mesmo.
A realidade me pesa, como a qualquer outro.
E não está em meus planos o heroísmo, a vanguarda da salvação, o descobrimento das fórmulas que salvarão a mim, e ao resto do mundo.
Meus objetivos são mais simples, e minhas convicções já foram estabelecidas há tempos atrás.
Eu tenho horror a porcarias que se reproduzem, e as pessoas que reproduzem porcarias, de qualquer espécie.
Horror à miséria. À injustiça. À hipocrisia do ‘meu eu pode tudo, e o seu não’. Horror à maldade. Horror à falta de auto-reflexão.
Horror ao descaso. Horror ao preenchimento de vazios com mais vazios. Horror à falta de perspectiva. Horror a fazer a vida pesar para outros, porque a própria vida, já cuida de nos judiar bastante.
Horror a mamão, e panetonne, que são ruins pra cacete.
Mas tudo isso, só serve para agradecer ao meu pai, que, anos depois, fez a gentileza de me pagar cinco anos de aulas de piano, e ter me permitido entrar colocar em contato com caras como Bach e Chopin, por quem nutro um tesão proporcionalmente idêntico à guitarra do Jimi.
E a um professor de patologia, que disse, uma semana antes de eu interferir no meu destino acadêmico, “seu lugar não é aqui”.
Sou uma pessoa melhor, pela guitarra que eu não sei tocar, e por me desalojarem das minhas masmorras.
domingo, 14 de outubro de 2007
Dos processos seletivos

Os recursos humanos e as consultorias estão na moda.
É, essa coisa de recrutar pessoal, desenvolver habilidades, potencializar a criatividade, aprender a trabalhar em grupo, prestar serviços, lidar com as diferenças.
Eu, particularmente, gostaria de trabalhar com isso apenas quando morrer. É alguma coisa assim – “Anjos e arcanjos Ltda”. Ou “Sky – RH”.
Seria um emprego fantástico (um pouco eterno, mas fantástico).
Primeiramente, é preciso selecionar o pessoal. Seres humanos são muito ingênuos, acham que quando morrem, acaba-se essa história de fila, demoras em atendimento, currículo. Morreu, descansou? Nada, tudo balela.
É preciso organizar as coisas lá em cima. ‘Onde ter ser humano, tem problema’, sempre diz o Todo Poderoso. ‘Não sei onde estava com a cabeça quando deu vale de vida eterna, bah’.
Vestida de terninho branco, e salto alto, após esticar as canelas, começo meu trabalho.
‘Pronto, pessoal, vamos agilizar: funcionários públicos longe de advogados. Pessoal de humanas (comunicação social, economia, artes, entre outros) longe das Engenharias e Ciências Exatas Aplicáveis. Médicos longe de veterinários’. E assim, por diante. Áreas separadas (tique com a caneta).
Separados, é preciso chamar os grandes homens e mulheres – não gosto deles, mas fazem sucesso. Convocar os gênios, os prêmios Nobel, os ganhadores do Oscar, todo esse tipo de gente que bebeu muito vinho francês em eventos. Para coordenar os trabalhos em grupo. (tique).
Pausa imprevista.
Hitler, Stálin, Mussolini, Mao, estão fora. Muito rebeldes, não sabem perder, e tem não simpatia do povo. E apesar dessa falta de organização dos homens, tiros no céu é brincadeira! Adão e seus comparsas são chamados e levam os maus elementos para uma salinha VIP, onde fazem um vale-tudo sob a coordenação do Gabriel (que no fundo, sempre gostou de uma coisa subversiva, bem sabemos).
Após as atividades, os mais aptos serão selecionados. Darwin aparece para dar seu palpite final. Verificar mutações, acasos, probabilidades errôneas. Dá seu parecer. (tique e relatório).
As fichas de idiomas, experiência profissional, conhecimentos de informática, cursos extra-curriculares, livros lidos durante a vida, trabalho voluntário, são preenchidos. (tique).
Parecer: todos os advogados descem. Alguns engenheiros. Uns artistas. Uns cantores. (ticando nomes, ticando nomes). 80% dos funcionários públicos. Jurados do show de calouros. Pronto.
Os que restaram ganham uma noite de jantar mexicano. Justus aparece (Justus vai morrer cedo) para dar os últimos toques, dicas, contar sua historia de vida (essas coisas que dão audiência em literalmente todos os lugares do mundo).
Muita tequila, muito guacamole, muitos doces de nozes.
No outro dia, estão todos de ressaca.
Lú aparece, para um café com o diretor, Pedrão.
- Pô Pedro, vocês foram covardes dessa vez, mandaram um batalhão! Aquilo está o pior que o inferno!
- Não tenho culpa Lú,é a expectativa de vida. Caras tem vivido mais, nascido mais, são eles. Humanos. Não vivem direito, depois morrem, e querem passar a vida aqui, tomando tequila, vendo filmes antes da estréia, deitando em colchão de água... é foda. Não basta ter vida fácil, depois que morre...
- Preciso falar com o chefe aí, porque se continuar assim...
(Passam-se alguns minutos, Deus aparece, com os olhos inchados).
- Pô Lúcifer, são 11 horas da matina!
- É meu velho, você ainda comeu tacos, bebeu tequila, ganhou uns trocados do Justus..
- Tua noite foi difícil?
- Foi dose, cara. Quiseram burocratizar o inferno. Fizeram formulários para usar o banheiro. Impostos para tomar banho. Elevadores para mudar de ambiente. Umas músicas feias, uma gente pentelha. Até previdência! Puta que o pariu.
- Faz o seguinte, chama o Hendrix e o Coltrane, e um barman bom. Justus deixou um cheque, fazemos um happy-hour. Nos meus aposentos.
- Fechado.
Durante o happy-hour, ao conversarem com Hendrix sobre a difícil tarefa de administração do céu e do inferno, Jimi relembra-os que a culpa é de Bento XVI, o morcegão italiano. “O cara extinguiu o purgatório! Li no Sky-News. Louco!”.
Deus e Lu entreolharam-se, com raiva. ‘Ah Bento... você não sabe com quem mexeu, meu irmão, ah...’.
Foram chamadas as infantarias. Anjos, arcanjos, diabinhos, aspirantes. Todos armados.
- Seguinte: desçam e trucidem o Papa.
- Mas senhores! Ele é o representante! Fizemos um juramento... não podemos.
- Sabe quem são os próximos a vir pra cá?
- (silêncio)
- Mainardi está com o pé na cova, e Galvão Bueno deu entrada na UTI hoje.
São Miguel Arcanjo, capitão, grita:
- Infantaria, marchem!
(...)
No final da noite, o Sky News me chama. ‘Dona, reativaram o purgatório, nosso correspondente acabou de informar’.
Na volta, passo na coordenação, e assino meus 30 dias de férias.
Depois que o purgatório foi reativado, tudo se tranqüilizou. Veio até a CLT.
'Moralismo é o c..', diz o Superior.
'Nada mais importante na vida, e depois na morte, do que o horror àqueles que nada acrescentam em sua vida'.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
segunda-feira, 9 de julho de 2007
A velha novidade

"A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”
É certo que a ausência ocupa esse blogue há tempos.
E dizer que entraremos em recesso, visto quanto tempo estamos fora do ar, é um pleonasmo da pior qualidade.
(...).
Mas devo, as poucas pessoas que comparecem aqui, e querem se deparar com novas palavras, que estas demorarão a chegar.
Talvez surja aqui um dia, uma explicação para esse recesso. Talvez só voltemos, sem maiores detalhes de período mal-concebidos.
Enquanto a novidade não vier à praia, as mesmices de outras palavras aqui serão a única proximidade entre eu, que escrevo, e você, que atenciosamente, lê.
E ficam aqui registradas as minhas sinceras desculpas, pelo desejo ínfimo de compartilhar aqui, o que me acontece atualmente.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Das dádivas perdidas.

Não sei que em certa altura do desenvolvimento humano, decidiram abolir o silêncio.
O silêncio se tornou constrangedor. Mal-educado. Até ameaçador. Salas de espera, saguões de aeroporto, filas de banco. É uma tortura. Você está lá, cá entre seus pensamentos, e alguém teima em fazer parte do seu pequeno, mísero, ínfimo tempo de silêncio.
“Fila longa, não?”.
“É, essa ponte aérea, que vida”.
“O meu canal precisa de um retoque”.
A comunicação, verbal, é essencial. Mas eu, por exemplo, preciso ter uns momentos de comunicação com meu cérebro. Ver se está tudo bem, como ele passou a semana, como vem se virando entre tantas sinapses, tantos impulsos, essas coisas do dia-a-dia. É verdade que tem o cerebelo, o bulbo, mas pêra lá, somos eu e ele, aí, todos os dias, na comunicação direta. Ele manda, eu respondo, eu mando, ele responde. Precisamos de intimidade. Ele quer entender aquele calafrio da terça-feira, ou aquela irritação da quinta-feira à noite; eu preciso de umas informações sobre aquele texto de quatro dias atrás.
Necessitamos um momento de carinho. Eu digo “vem pra cá”. E ele vem, dengoso. Precisa descansar, por uns segundos que seja. E eu também.
E vem um fiodaputa nos incomodar?
Por Deus!
Em que mundo vivemos!
Não deixem as pessoas começarem com perguntas.
“O senhor acha bom esse médico aí?”
Não responda!
“Preciso que te dizer que esse vôo...”
Não precisa!
Mas se vier o fatal “Posso te fazer uma pergunta?”.
Não pode! Não!
Controle-se, vire, torça os dedos, controle a respiração.
Melhor ainda: corra.
terça-feira, 15 de maio de 2007
O outro imortal tricolor.

Eu tenho poucos prazeres na vida.
Prazeres mesmo - aquelas coisas que fazem você sentir que está vivo, e que está vivo para alguma coisa.
Lamber o sorvete na beira da taça, antes que ele caia, por exemplo, é bom, bom demais até, mas depois do primeiro empurrão que você toma ao sair da sorveteria, pronto. Raiva no coração, xingamentos, e lambidas à parte.
Ver o São Paulo perder, por exemplo. É um prazer. Um prazer enorme. Tão proporcional a ter uma boa noite (de sexo, é claro), depois de um dia de cão com pessoas cretinas ao redor. E perder do Grêmio, por favor. É um prazer, orgásmico!, realmente.
Afinal, Grêmio, quem é o Grêmio? Ah? Um jogador de destaque do Grêmio, ah? (Sandro Goiano? Hein?).
Só o que me lembro do Grêmio é o hino, e porque no colegial fazíamos uns batuques entre uma aula e outra, e o hino do Grêmio era encaixava em uns acordes “até a pé nós iremos (tá tá), para o que der e vier (tá tá), mas o certo é que nós estaremos (tá tá), com o Grêmio, onde o Grêmio estiver (tá tá)”.
Ah, como é bom ser surpreendido. É outro grande prazer que eu tenho. O Grêmio! Logo o Grêmio, quem diria. Podia ser qualquer um, mas foi o Grêmio! (e quem se importa com o Ronaldinho Gaúcho e o Paulo Nunes uma hora dessas?). Ah Grêmio, viu, esse sim.
Além do São Paulo perder, e do Grêmio (leia-se qualquer um) ganhar, há um outro prazer sem tamanho: o são-paulino puto. O são-paulino do “Morumtri”, do “melhor time do mundo”, “do time-seleção”, “do Rogério Ceni goleiro do Brasil”. No outro dia, você dirá “Bom dia”, e o cara te olhará portando 10 pedras em cada mão, e preparando dezenas de meias palavras (ordinárias e soberbas, claro) para contradizer os teus comentários engraçadinhos sobre o time do coração dele.
Pensa “vai, fiodaputa, começa, para você ver”.
E você sai, “pô cara, aí, tenha um ótimo dia”.
Nada melhor do que (sempre) aumentar o prazer: são-paulinos putos e contrariados. Ah! A humildade irrita o são-paulino; tanto quanto a um tucano roxo, ou um conservador de extrema direita.
É lindo!
Tudo bem, eu tenho outros prazeres.
(...)
(Libertadores? É..., é site?)
terça-feira, 6 de março de 2007
Intrusos

É claro que antigamente tudo era mais fácil.
Eu Jane, você Tarzan, pronto. Sabíamos quem éramos, e nada mais importava. Você homem macaco, eu sua fêmea. Você sair, caçar e matar bicho, eu preparar bicho. Você rei da Jângal, e os negros seus adoradores, eu companheira fiel. E a água e o ar eram puros, haviam bichos para todos, e nos amávamos a noite. E o céu era limpo e as estrelas eram vistas todas as noites, sem buracos no metrô, veto orçamentário porque o país não cresce, jornal nacional sensacionalista ou vegetarianos para nos deprimir.
Aí vieram os homens brancos com outras histórias e acabaram com tudo.
Disseram que você também era um deles, um gentleman. E os negros não lhe adoravam mais, e o acusavam de ter uma mente colonial anti-abolicionista.
De repente, tínhamos sobrenomes, parentes, biografias, dívidas.
Passado, presente e futuro.
Infectaram-nos, pois a consciência do nosso presente nos fez ter consciência do nosso passado e medo de que nosso futuro não tenha cartões de banco, picanha, TV, dinheiro no fim do mês e algum ser para que possamos transmitir nossos genes (ah?). É. Pela primeira vez Jane disse "hoje não". E você, Tarzan, se revoltou "dor de cabeça? ah?". E procurou outras Janes.
Agora, Tarzan tem medo de se envolver, e acha que é muito jovem para que Jane seja a Jane de sua vida. Quer dar prioridade ao seu trabalho, aos seus projetos e a algumas coisas que nem mesmo Tarzan sabe o que é (sim, Tarzan se tornou um homem branco contraditório).
Diz que gosta de Jane (ou qualquer outra coisa na qual ela tenha se transformado). Diz também que precisam conversar no MSN, porque Tarzan trabalha demais. E terem e-mails, para manterem contato e enviar power-points forward, porque ele nunca responde os scrapes de Jane no Orkut. Claro, como é um relacionamento mal-resolvido e eles ainda se gostam, e Tarzan nunca deixou a história com Jane acontecer de verdade nessa nova era, eles continuarão a se ver de vez em quando, por aí.
As estrelas não brilham mais no céu, a água e o ar não são mais puros, os bichos fogem de nós, as bananas não são suficientes.
"Jane ama Tarzan", e Tarzan diz "agora não".
E assim se deu o fim dos tempos.
domingo, 4 de março de 2007
Alfredo

Perto de casa, dentro de um condomínio onde morei até os 11 anos, tinha uma amoreira. Ficava perto da divisa com um outro condomínio, no meio de uma rede de arame farpado. Ao lado, uma pitangueira. E ao redor, pinhas.Passava tardes inteiras lá, arremessando pinhas e comendo amoras, vez em quando umas pitangas, que eram mais raras. Com o tempo, atingi a marca dos 14 metros no lançamento de pinhas, o que para mim, era sensacional. Não precisava competir com ninguém (certamente as pessoas tinham coisas melhores a fazer) e não havia ninguém para me encher a paciência, cobrando que eu lançasse pinhas mais longe ou lavasse as amoras antes de comê-las.
Com o tempo, passei a levar almofadas, giz de cera e uma toalha velha, que ajudava a não ser comida pelas formigas. Marcava os meus terríveis recordes na parede, depois sentava, colocava uma almofada nas costas e ficava lá. Descobri que o caseiro escutava todos os dias uma música do Chico Buarque, que anos mais tarde, descobri ser "Roda Viva", a melhor dentro das melhores composições do Chico. O filho do caseiro trocava de carro a cada três meses, e sempre um carro com lugares apenas para duas pessoas (soube mais tarde que não teve filhos). A mulher dele cozinhava batata doce às quartas-feiras, e quando me encontrava por ali, me doava uma, embrulhada em um pano de prato. Nunca contei a ela que detestava batata doce, coisas da vida. Uma coisa assim,pode destruir um relacionamento, vai saber. E eu gostava muito dela.
A verdade é que eu gostava de ficar até tarde lá para ver o porteiro subir e apagar as luzes das quadras. Seu Alfredo. O corintiano mais tranquilo e o cara que mais entendia de marcenaria que conheci na vida. Fez uma caixinha de madeira para mim e montava com as vigas que sobraram em um barracão ao lado das quadras vários projetos de casas que ele sonhava em construir. Ensinou-me a cantar umas músicas do Cartola, (dizia ser o maior malandro romântico de todos os tempos) e a identificar faltas no futebol. Dizia "é uma sacanagem, minha filha, uma sacanagem parar uma jogada sensacional como essa, com uma rasteira".
Minha mãe contou que logo que nós mudamos, ele se aposentou. Devo ter chorado de dor pela primeira vez na vida. Contavam sempre que quando as pessoas se aposentavam, elas eram tiradas da tomada. Pensava que nunca mais ia ver o Alfredo na vida, o que não aconteceu... levou algum tempo, muito eu diria, pois eu já dirigia, já bebia e já fazia coisas que o Alfredo cantava nas músicas do Cartola.
Ele me levou para tomar café, como fazia quando me levava para casa e minha mãe estava puta da vida. Tomava café em casa até tarde da noite (quando estava de turno), acalmava minha mãe e dizia "uma graça essa sua filha dona Helaine, uma graça".
Tinha uma cabeleira branca respeitável, um sorriso de canto de boca, meio cansado da vida, meio feliz, meio triste. Dizia que a portaria foi o melhor serviço da vida dele, e que tinha feito umas vassouras recentemente. Ainda me chamava de minha filha, e tomava aquele café amargo pra dedéu, acompanhada das broas de fubá da Dona Maria (sua senhora) que ele ainda carregava na bolsa carteiro azul-marinho-de-60 e poucos.
Disse que tinha saudades daquela época. Que queria ser enterrado lá, no barracão do lado das quadras, onde ficavam as pilhas de madeira. Sempre disse que aquele pedaço era a casa dele.
A vida, em qualquer estância, é uma volta ao lar.
Destruíram tudo, porque depois de uns anos, as pessoas perdem o respeito, e se trancam em suas masmorras.
Não tem mais barracão, amoreira, pitangas, madeiras ou pinhas. Arrancaram tudo e plantaram umas árvores estranhas, altíssimas. Pintaram o muro e o levantaram, retirando o arame farpado. O caseiro faleceu alguns anos atrás, e não pode ser enterrado no quintal de casa também. É assim, sempre querem nos proteger de nós mesmos.
Com o passar dos anos, as pessoas ficam mais duras, mais secas e mais egoístas. Recusam que sejam afetadas por outras pessoas, "uma hipocrisia", dizia dona Maria. “Eles não entendem”, reclamava.
Ele vivia dizendo uma frase de Dante, "na metade da vida, me achei numa selva densa". "Que hoje é enfeitada por carros, poluição, pães-de-queijo de borracha e café expresso", completava.
Eu baixava os olhos, triste, querendo fazer alguma coisa por ele, gritar para todos os desgraçados insensíveis e ordinários do mundo que aquele cara era um dos meus melhores amigos, e que só queria continuar em casa.
E Alfredo sorria querendo dizer "eles complicam tudo, minha querida", batucava na mesinha, tomava café, cantava mexendo a cabeça para o lado como sempre fazia....
"Tudo de alegrias e de tristezas conheci
A verdade é que eu gostava de ficar até tarde lá para ver o porteiro subir e apagar as luzes das quadras. Seu Alfredo. O corintiano mais tranquilo e o cara que mais entendia de marcenaria que conheci na vida. Fez uma caixinha de madeira para mim e montava com as vigas que sobraram em um barracão ao lado das quadras vários projetos de casas que ele sonhava em construir. Ensinou-me a cantar umas músicas do Cartola, (dizia ser o maior malandro romântico de todos os tempos) e a identificar faltas no futebol. Dizia "é uma sacanagem, minha filha, uma sacanagem parar uma jogada sensacional como essa, com uma rasteira".
Minha mãe contou que logo que nós mudamos, ele se aposentou. Devo ter chorado de dor pela primeira vez na vida. Contavam sempre que quando as pessoas se aposentavam, elas eram tiradas da tomada. Pensava que nunca mais ia ver o Alfredo na vida, o que não aconteceu... levou algum tempo, muito eu diria, pois eu já dirigia, já bebia e já fazia coisas que o Alfredo cantava nas músicas do Cartola.
Ele me levou para tomar café, como fazia quando me levava para casa e minha mãe estava puta da vida. Tomava café em casa até tarde da noite (quando estava de turno), acalmava minha mãe e dizia "uma graça essa sua filha dona Helaine, uma graça".
Tinha uma cabeleira branca respeitável, um sorriso de canto de boca, meio cansado da vida, meio feliz, meio triste. Dizia que a portaria foi o melhor serviço da vida dele, e que tinha feito umas vassouras recentemente. Ainda me chamava de minha filha, e tomava aquele café amargo pra dedéu, acompanhada das broas de fubá da Dona Maria (sua senhora) que ele ainda carregava na bolsa carteiro azul-marinho-de-60 e poucos.
Disse que tinha saudades daquela época. Que queria ser enterrado lá, no barracão do lado das quadras, onde ficavam as pilhas de madeira. Sempre disse que aquele pedaço era a casa dele.
A vida, em qualquer estância, é uma volta ao lar.
Destruíram tudo, porque depois de uns anos, as pessoas perdem o respeito, e se trancam em suas masmorras.
Não tem mais barracão, amoreira, pitangas, madeiras ou pinhas. Arrancaram tudo e plantaram umas árvores estranhas, altíssimas. Pintaram o muro e o levantaram, retirando o arame farpado. O caseiro faleceu alguns anos atrás, e não pode ser enterrado no quintal de casa também. É assim, sempre querem nos proteger de nós mesmos.
Com o passar dos anos, as pessoas ficam mais duras, mais secas e mais egoístas. Recusam que sejam afetadas por outras pessoas, "uma hipocrisia", dizia dona Maria. “Eles não entendem”, reclamava.
Ele vivia dizendo uma frase de Dante, "na metade da vida, me achei numa selva densa". "Que hoje é enfeitada por carros, poluição, pães-de-queijo de borracha e café expresso", completava.
Eu baixava os olhos, triste, querendo fazer alguma coisa por ele, gritar para todos os desgraçados insensíveis e ordinários do mundo que aquele cara era um dos meus melhores amigos, e que só queria continuar em casa.
E Alfredo sorria querendo dizer "eles complicam tudo, minha querida", batucava na mesinha, tomava café, cantava mexendo a cabeça para o lado como sempre fazia....
"Tudo de alegrias e de tristezas conheci
Coisas do amor e do sofrer eu já senti
Nada me transforma a alegria de viver
Vêr a noite vir e sorrir ao sol nascer
Vivo esperando o novo dia
Que irá trazer a luz que sempre ficará"
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