
Os recursos humanos e as consultorias estão na moda.
É, essa coisa de recrutar pessoal, desenvolver habilidades, potencializar a criatividade, aprender a trabalhar em grupo, prestar serviços, lidar com as diferenças.
Eu, particularmente, gostaria de trabalhar com isso apenas quando morrer. É alguma coisa assim – “Anjos e arcanjos Ltda”. Ou “Sky – RH”.
Seria um emprego fantástico (um pouco eterno, mas fantástico).
Primeiramente, é preciso selecionar o pessoal. Seres humanos são muito ingênuos, acham que quando morrem, acaba-se essa história de fila, demoras em atendimento, currículo. Morreu, descansou? Nada, tudo balela.
É preciso organizar as coisas lá em cima. ‘Onde ter ser humano, tem problema’, sempre diz o Todo Poderoso. ‘Não sei onde estava com a cabeça quando deu vale de vida eterna, bah’.
Vestida de terninho branco, e salto alto, após esticar as canelas, começo meu trabalho.
‘Pronto, pessoal, vamos agilizar: funcionários públicos longe de advogados. Pessoal de humanas (comunicação social, economia, artes, entre outros) longe das Engenharias e Ciências Exatas Aplicáveis. Médicos longe de veterinários’. E assim, por diante. Áreas separadas (tique com a caneta).
Separados, é preciso chamar os grandes homens e mulheres – não gosto deles, mas fazem sucesso. Convocar os gênios, os prêmios Nobel, os ganhadores do Oscar, todo esse tipo de gente que bebeu muito vinho francês em eventos. Para coordenar os trabalhos em grupo. (tique).
Pausa imprevista.
Hitler, Stálin, Mussolini, Mao, estão fora. Muito rebeldes, não sabem perder, e tem não simpatia do povo. E apesar dessa falta de organização dos homens, tiros no céu é brincadeira! Adão e seus comparsas são chamados e levam os maus elementos para uma salinha VIP, onde fazem um vale-tudo sob a coordenação do Gabriel (que no fundo, sempre gostou de uma coisa subversiva, bem sabemos).
Após as atividades, os mais aptos serão selecionados. Darwin aparece para dar seu palpite final. Verificar mutações, acasos, probabilidades errôneas. Dá seu parecer. (tique e relatório).
As fichas de idiomas, experiência profissional, conhecimentos de informática, cursos extra-curriculares, livros lidos durante a vida, trabalho voluntário, são preenchidos. (tique).
Parecer: todos os advogados descem. Alguns engenheiros. Uns artistas. Uns cantores. (ticando nomes, ticando nomes). 80% dos funcionários públicos. Jurados do show de calouros. Pronto.
Os que restaram ganham uma noite de jantar mexicano. Justus aparece (Justus vai morrer cedo) para dar os últimos toques, dicas, contar sua historia de vida (essas coisas que dão audiência em literalmente todos os lugares do mundo).
Muita tequila, muito guacamole, muitos doces de nozes.
No outro dia, estão todos de ressaca.
Lú aparece, para um café com o diretor, Pedrão.
- Pô Pedro, vocês foram covardes dessa vez, mandaram um batalhão! Aquilo está o pior que o inferno!
- Não tenho culpa Lú,é a expectativa de vida. Caras tem vivido mais, nascido mais, são eles. Humanos. Não vivem direito, depois morrem, e querem passar a vida aqui, tomando tequila, vendo filmes antes da estréia, deitando em colchão de água... é foda. Não basta ter vida fácil, depois que morre...
- Preciso falar com o chefe aí, porque se continuar assim...
(Passam-se alguns minutos, Deus aparece, com os olhos inchados).
- Pô Lúcifer, são 11 horas da matina!
- É meu velho, você ainda comeu tacos, bebeu tequila, ganhou uns trocados do Justus..
- Tua noite foi difícil?
- Foi dose, cara. Quiseram burocratizar o inferno. Fizeram formulários para usar o banheiro. Impostos para tomar banho. Elevadores para mudar de ambiente. Umas músicas feias, uma gente pentelha. Até previdência! Puta que o pariu.
- Faz o seguinte, chama o Hendrix e o Coltrane, e um barman bom. Justus deixou um cheque, fazemos um happy-hour. Nos meus aposentos.
- Fechado.
Durante o happy-hour, ao conversarem com Hendrix sobre a difícil tarefa de administração do céu e do inferno, Jimi relembra-os que a culpa é de Bento XVI, o morcegão italiano. “O cara extinguiu o purgatório! Li no Sky-News. Louco!”.
Deus e Lu entreolharam-se, com raiva. ‘Ah Bento... você não sabe com quem mexeu, meu irmão, ah...’.
Foram chamadas as infantarias. Anjos, arcanjos, diabinhos, aspirantes. Todos armados.
- Seguinte: desçam e trucidem o Papa.
- Mas senhores! Ele é o representante! Fizemos um juramento... não podemos.
- Sabe quem são os próximos a vir pra cá?
- (silêncio)
- Mainardi está com o pé na cova, e Galvão Bueno deu entrada na UTI hoje.
São Miguel Arcanjo, capitão, grita:
- Infantaria, marchem!
(...)
No final da noite, o Sky News me chama. ‘Dona, reativaram o purgatório, nosso correspondente acabou de informar’.
Na volta, passo na coordenação, e assino meus 30 dias de férias.
Depois que o purgatório foi reativado, tudo se tranqüilizou. Veio até a CLT.
'Moralismo é o c..', diz o Superior.
'Nada mais importante na vida, e depois na morte, do que o horror àqueles que nada acrescentam em sua vida'.